Não conseguia olhar para si e não ver apenas um pedaço de nada. Um nada que sentia tanto por ver tudo se perdendo. Descobriu que não podia esperar nada dos sentimentos. Podia apenas deixá-los vir, sem culpa. E o resto, eles fariam. Chegou ao seu limite alcançável, experimentou das piores sensações e se conheceu. Afinal, um ser humano só se conhece quando chega ao seu extremo, isso exige toda a sua coragem, toda a sua força.
O vazio dos olhos negros. Era isso o que via. O vazio. Se alimentava das migalhas, mas elas não lhe davam o sustento. Sentia que precisava de mais. O chão se abria sobre seus pés, e o vazio continuava a perseguindo.
Queria que não fosse embora nunca, mas queria abandonar tudo e ir pra longe. Fingir que a vida ainda não houvesse lhe dado a chance. Fingir que por tantas e tantas vezes essa chance não havia batido na porta com cara de amor. Mas preferia o sofrimento, preferia a dor. Não trocaria uma coisa que sabia fazer tão bem, por outra completamente incógnita. Não permitiria que batesse em sua porta e levassem a sua dor tão conhecida, colocando uma ainda maior em si, com a qual não se acostumaria.
Ela se bloqueara. Mais uma vez. Pra mais um amor. Não deixaria nunca de sentir, não se arriscaria. Era covarde demais pra esperar que um desconhecido a levasse.
Ah, aquele amor truculento que queria deixá-la no apogeu da perplexidade, não a enganaria.
Poderia bater mil vezes na porta, que mil vezes ela seria fechada. Mil vezes com medo do desconhecido. Mil vezes se perdendo em seu limite de dizer não. Mil vezes achando que perder a emoção é melhor que perder a razão.
E continuaria assim, até que encontrasse alguém corajoso o suficiente, forte o suficiente pra tirá-la da cápsula que a protegia e a levasse de olhos fechados mesmo, sem medo, sem dor... e leve.
